Artigo escrito com o objectivo de contribuir para a edificação de um Moçambique Melhor
“Porque é que todos estes países afundaram? […]. Olhem para o Congo, olhem para a Nigéria! Estes países possuem vastos recursos naturais e cerca de 20 pessoas por quilómetro quadrado. No entanto, não desfrutam dos nossos padrões de vida. Porquê? […]. Digo-vos, há muitas razões: Primeiro, a falta de vontade de edificar uma Nação.”
As palavras citadas acima foram proferidas há mais de 60 anos atrás por Lee Kuan Yew, Primeiro Ministro de Singapura, quando questionado sobre as razões pelas quais o seu país se desenvolveu rapidamente após a independência.
No livro “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”, o tema “A Falta de Vontade de Edificar uma Nação” é abordado com paixão nos capítulos 25 e 27 que lidam com a marginalização de determinados grupos da nossa população, com as profundas divisões étnicas e étnico-religiosas, bem como com a falta de priorização da sua resolução. Quando existem tais diferenças, é difícil para os membros da sociedade unirem-se e trabalharem em conjunto na prossecução de objectivos comuns para o seu bem-estar.
A verdadeira face das tensões étnicas e étnico-religiosas em Moçambique foi, mais uma vez, manifestada na semana passada durante o Funeral Eclesiástico de Dom Osório Citora Afonso, Bispo de Quelimane assassinado. As seguintes palavras proferidas pelos seus familiares durante a cerimónia demonstram claramente que as tensões étnicas e étnico-religiosas em Moçambique estão longe de serem resolvidas: “Queremos pedir desculpas aos crentes de bem porque nós hoje levamos o que é nosso. Não é desta maneira que se deixa um familiar. Nós, os Macuas, já vamos. Fiquem com a Diocese.”
Em todo o Moçambique existem graves hostilidades étnicas e étnico-religiosas que causam conflitos e tensões entre os Mwanis, Makondes e Macuas nas províncias de Cabo Delgado e Nampula; entre os Nyanjas e os Ajauas na província do Niassa; entre os Chuabos e Lomwes na província da Zambézia; entre os Nyungwes e os Nyanjas-Ngonis na província de Tete; entre os Senas e os Ndaus na província de Sofala; entre os Bitongas, Matswas e Chopes na província de Inhambane e entre os Changanas e Rongas nas províncias de Gaza e Maputo. Existem também graves hostilidades regionais entre os Sulistas e os Nortenhos (os chamados Xingondos).
Como mostra a fotografia 38 do livro acima referido, o regionalismo Sul prevaleceu depois da independência de Moçambique. O único ministro negro nomeado para representar o Centro e Norte de Moçambique no primeiro governo da FRELIMO foi apenas um – o General Alberto Joaquim Chipande. Foi a partir dos governos dos Presidentes Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Jacinto Nyusi que começou a haver um ligeiro equilíbrio regional na nomeação de moçambicanos de diferentes regiões do país para cargos de chefia.
Devido à diversidade étnica do nosso país, a nomeação de ministros, bem como de outros membros do comité executivo do governo, deve, por lei, incorporar políticos de diferentes zonas do país e de diferentes grupos étnicos e étnico-religiosos. O objectivo deve ser: promover uma lealdade nacional comum, dando a cada cidadão moçambicano um sentido de pertença à nação. A menos que o governo faça isso, não será capaz de alcançar os objectivos de boa governação, de fortalecimento da identidade nacional e do bem-estar comum, como bem disse o Primeiro-Ministro de Singapura, Lee Kuan Yew, depois de ter visitado os primeiros países africanos independentes na década de 60. A população de Singapura é composta por 75,5% de chineses, 15,1% de malaios, 7,6% de indianos e 1,8% de outros grupos.
In “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”
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