Artigo escrito com o objectivo de contribuir para a edificação de um Moçambique Melhor

O Papa Leão XIV condenou de forma explícita a escravatura dos africanos e pediu desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica neste crime hediondo, tendo, ao mesmo tempo, apelado para uma reparação justa. Na sua primeira Encíclica, Magnifica Humanitas (Humanidade Magnífica), publicada em 25 de Maio de 2026, o Papa Leão XIV descreveu o comércio de escravos africanos, realizado por europeus com a cumplicidade da Igreja Católica, como “uma ferida aberta na memória cristã”.
É importante referir que o tráfico de escravos africanos, organizado por europeus, com o apoio e cumplicidade da Igreja Católica, é um dos temas mais sensíveis abordados no último livro deste autor – “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”(2024). Em 1452, o Papa Nicolau V emitiu a bula Dumas Diversas que concedia ao Rei D. Afonso V de Portugal o direito de conquistar “territórios não cristianizados” e de subjugar e escravizar os seus habitantes, tomando igualmente posse das suas terras e bens. Em 1455, o mesmo Papa Nicolau V emitiu outra bula, Romanus Pontifex, legitimando a tomada forçada de terras em África e nas Américas.
Está de parabéns o Papa Leão XIV! Reconhecer um erro e pedir desculpas não é apenas humano, mas um acto nobre. Os erros fazem parte do processo de crescimento e de aprendizagem. O que fica diferente é a capacidade de reconhecer erros, pedir desculpas, aprender com eles e evitar que voltem a acontecer. Os países que perderam a maior parte das suas populações, através da escravatura, foram Angola, Nigéria, República Democrática do Congo (RDC), Gana e Moçambique. O Gana acolheu favoravelmente o pedido de desculpas do Papa Leão, descrevendo-o como um “acto de coragem moral”.
Refira-se, no entanto, que não foram apenas os europeus e a Igreja Católica os culpados pela escravatura dos africanos, uma ferida cujas cicatrizes são presentemente transmitidas através do racismo e do contínuo tratamento dos negros como subumanos. Tanto os europeus como os árabes procuraram propagar as suas religiões em África, alegando que tudo o que os africanos praticavam era idolatria e adoração à Satanás.
O comércio de escravos africanos, organizado por europeus com o apoio e cumplicidade da Igreja Católica, durou quatro séculos. O comércio árabe de escravos africanos durou 13 séculos, três vezes mais. O que é mais, enquanto os europeus levaram 12 milhões de africanos como escravos, os árabes levaram mais de 17 milhões de escravos. Note-se ainda que embora existam milhões de descendentes de escravos africanos nas Américas, existem pouquíssimos (se é que existem) nos países árabes devido à sua política de castrar escravos negros do sexo masculino.
As gerações presentes e futuras precisam ter uma ideia clara do que aconteceu no passado e do melhor caminho a seguir. A intolerância religiosa, especificamente as atrocidades e actos de destruição associados às diferenças religiosas no Norte de Moçambique, não têm razão de existir.
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