
Moçambique é um dos países africanos mais ricos em recursos naturais. No entanto, meio século desde que alcançou a independência, continua a ser um dos principais fracassos da África Subsariana, incapaz de alimentar a sua própria população e em guerra. Em contraste, o Botswana, um país semidesértico, apresenta a melhor história de sucesso.
Algumas vozes dizem que Moçambique permanece pobre precisamente por causa dos seus vastos recursos. Quando um país subdesenvolvido é ricamente dotado de recursos, poucos dos seus líderes resistem às más influências ou ao desejo de acumular riqueza para si próprios, para seus familiares, amigos e membros da sua tribo ou região, negligenciando o resto da população. Aqui vem à tona o caso da Guiné Equatorial, onde pai e filho são o presidente e o vice-presidente daquele país, respectivamente. Resultado: o país continua pobre e eclodem guerras civis.
O governo precisa acomodar os anseios do povo, limitando as distâncias sociais que seguem linhas verticais, se quiser manter a lealdade do povo e permanecer no poder com o seu apoio. Quando as distâncias sociais são maiores, o interesse comum fica reduzido a apenas dois interesses: dos que têm e dos que não têm. A onda de protestos pós-eleitorais em Moçambique pode claramente ser enquadrada dentro da divisão que existe entre os que têm – a elite governante e rica; e dos que não têm – as massas governadas e pobres.
A consequência inevitável é uma divisão entre estes dois grupos, dando origem a antagonismos e hostilidades que podem até resultar em guerras civis. Como bem disse o antigo presidente queniano, Uhuru Kenyatta, os países africanos compram balas e armas não para se defenderem contra ataques de países inimigos, mas para matar membros do seu próprio povo que, desiludidos com a liderança dos seus governantes, optam por romper:
“As balas e as armas que compramos […], não as compramos para lutar contra países inimigos. Nós as compramos para matar o nosso próprio povo […] por coisas estúpidas.”2
Os pobres odeiam os ricos não é tanto pela riqueza que eles possuem, mas pela maneira como a obtiveram e como a exibem – com um estilo de vida extravagante. Não é correcto nem justo, por exemplo, que um elemento do partido no poder ganhe três, quatro ou mais salários chorudos. Não é correcto nem justo que um elemento ancião do partido governante permaneça no poder, acumulando vários cargos de chefia, em vez de se aposentar, enquanto milhares de jovens formados permanecem nas ruas e sem emprego.
Na segunda categoria de distância social, as diferenças entre as unidades da sociedade seguem linhas horizontais. É difícil para os membros da sociedade unirem-se e trabalharem em conjunto na prossecução de objectivos comuns quando existem diferenças decorrentes do distanciamento social baseado em clivagens horizontais. Tensões étnicas e étnico-religiosas permanecem em Moçambique criando problemas desde o período colonial até a presente data. Durante vários anos, o governo da Frelimo informou aos moçambicanos e ao mundo que, em Cabo Delgado, está a combater o terrorismo. A menos que os vários grupos da sociedade tenham uma palavra a dizer sobre os seus recursos e tenham liberdade política e económica, não serão capazes de manter a sua própria identidade. Consequentemente, estando alienados da sua nação e vendo que não têm acesso directo às decisões sobre os seus recursos, optam por romper.
Tensões étnicas e étnico-religiosas existem em Moçambique e sempre criaram problemas desde o período colonial até a presente data. Embora o governo da Frelimo não o admita, as pessoas são discriminadas nas instituições governamentais, nos municípios e em vários locais de trabalho. Em 12 de Março de 2008, o jornal “Magazine Independente” revelou que o então governador da província do Niassa, Arnaldo Bimbe, favorecia algumas tribos, em detrimento de outras, na atribuição de cargos de chefia na Província do Niassa. Em 2022, o veterano da luta de libertação nacional, Alberto Joaquim Chipande, denunciou a existência de tribalismo nos ministérios e outras instituições do governo da Frelimo.
Tal como aconteceu durante a luta armada de libertação nacional, quando um grupo étnico tem influência política em cargos-chave, outros grupos étnicos são marginalizados. Em todo país, existem hostilidades tribais que causam conflitos e tensões entre os Makondes, Mwanis e Macuas; entre os Nyanjas e Ajauas; entre os Chuwabos e Lomwes; entre os Nyungwes e Ngonis; entre os Senas e Ndaus; entre os Bitongas, Matswas e Chopes; e entre os Changanes e Rongas. Existem igualmente sérias hostilidades regionais entre os Sulistas e os Nortenhos (os chamados Xingondos).
Devido à diversidade étnica no país, a nomeação de ministros, bem como de outros membros do comité executivo do governo, deve, por lei, incorporar políticos de diferentes zonas do país e de diferentes grupos étnicos. É do interesse do governo adoptar políticas tendentes a solucionar os problemas decorrentes do distanciamento social baseado em clivagens horizontais, concedendo aos diferentes grupos étnicos uma participação activa na sociedade e garantindo que todos estejam representados de forma justa nas mais altas instituições e órgãos de decisão da sociedade.
O objectivo seria promover uma lealdade nacional comum, dando a cada cidadão um sentimento de pertença à nação, independentemente da diversidade étnica, religiosa e cultural. A menos que o governo faça isso, não será capaz de alcançar os objectivos da boa governação. A sua atenção será desviada para gerir conflitos. Afinal, não é isso que acontece em Moçambique desde a sua independência, há meio século?
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In “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil” (Um livro sobre a História de Moçambique)
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