EM BUSCA DA VERDADE: MEIO SÉCULO APÓS O ASSASSINATO DO PADRE MATEUS PINHO GWENJERE, O SEU LEGADO CONTINUA A ASSOMBRAR OS SEUS OPONENTES [5]

“Estou pronto para defender a causa do povo negro até ao último suspiro” (Pe. Gwenjere in Arquivos da PIDE – Janeiro 1967)

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Extraído em :
O QUE TE ESCONDEM SOBRE A MORTE DO PADRE MATEUS GWENGERE -ContosQueContamHistorias
https://www.youtube.com/watch?v=bNVG0cevDp0

Antes mesmo de ser ordenado sacerdote, Mateus Pinho Gwenjere já estava consciente da sua missão aqui na Terra: dedicar a sua vida inteiramente ao povo moçambicano. Regozijado com o ingresso do Padre Gwenjere na FRELIMO, o Presidente Eduardo Mondlane é citado no livro “O Meu Coração Está nas Mãos de um Negro” como tendo descrito o Padre Gwenjere como “um dos mais importantes combatentes da liberdade que a FRELIMO conseguiu trazer para o exterior”. Este autor aqui vai mais longe: Na história de Moçambique, não há outro moçambicano que, como o Padre Gwenjere, lutou com tanto afinco para garantir ao povo moçambicano os seus direitos à liberdade, à justiça e ao bem-estar.

Logo após a sua ordenação como diácono em Julho de 1963, Mateus Gwenjere dirigiu uma carta ao Bispo da Beira, Dom Sebastião Soares de Resende, solicitando a sua intervenção numa altura em que os nativos passavam fome devido às cheias descontroladas que destruíam as suas machambas no Vale do Zambeze.

“[…] Se o Governo (Português) tem dinheiro para comprar munições de guerra para autodefesa, como é que não pode empregar uma milésima parte desse dinheiro para salvar esses pobres desamparados? Agradecia o favor de comunicar ao Senhor Governador  tudo  isto […]. Queira V. Exa. Revma. compreender-me como um filho que chora pelos seus irmãos  miseráveis  e  desamparados.”

Gwenjere escreveu esta carta em tom contundente, embora soubesse que corria o risco de não ser ordenado sacerdote, pois o Arcebispo Dom Custódio Alvim Pereira, da Arquidiocese de Lourenço Marques, havia alertado que a Igreja Católica em Moçambique não ordenaria seminaristas que constituíssem “um problema para o governo colonial português”.

Após sua ordenação sacerdotal, Gwenjere começou a protestar contra os maus tratos infligidos a seus irmãos negros. Após o incidente do catequista da Missão de Murraça que foi esbofeteado pelo capataz dos Caminhos de Ferro da Trans-Zambezi Railway por caminhar ao longo da linha férrea, fugindo a estrada onde não conseguia passar devido às chuvas, o Padre Gwenjere começou a encorajar os nativos a desrespeitarem as ordens que os proibiam de caminhar ao longo da linha  férrea, argumentando que “os negros têm todo o direito de caminhar ao longo da linha férrea, já que os portugueses não  conseguiam consertar e reparar estradas”.

Por defender os direitos dos negros à sua cultura e língua, o Padre Gwenjere substituiu a missa em português pela missa em Cisena, acompanhada de cânticos neste idioma e com o bater de palmas e batuques, para o aborrecimento da comunidade europeia local. Para anunciar a introdução da missa em  Cisena, ele escreveu a seguinte nota no quadro de avisos:

“A Missa passa a ser dita em Chisena, pois não quero ir para o inferno por estar a fazer teatro”. 

À medida que crescia o número de colonos que ocupavam terras férteis nas regiões de Caia e Sena, o Padre Gwenjere ia de casa em casa mobilizando os seus irmãos negros para a desobediência civil e exortando-os a se recusarem a cultivar algodão e a serem removidos das suas terras de origem. Um relatório da PIDE, datado de 1966, dizia o seguinte:

“O Padre Gwenjere, além de dizer aos africanos que o governo estava a roubar as suas terras para dar aos brancos, aconselhava-os a não cultivar o algodão.”

Como o seu aparelho de rádio, estabelecia contactos com as seus colaboradores da FRELIMO dentro de Moçambique e no Malawi, recebendo mensagens codificadas como esta: “recebida almadia com os cinco cabritos para o casamento de (fulano)”, a significar que “os cinco jovens que enviou à FRELIMO na Tanzânia chegaram bem ao seu destino”. 

Um mês após a morte do Bispo Dom Sebastião Soares de Resende, que era o seu protetor, a PIDE decidiu interrogar o Padre Gwenjere. Segundo a conclusão do interrogatório, ele não podia continuar a trabalhar na região de Murraça, “um lugar permeável à subversão”. Depois do interrogatório, o Padre Gwenjere convocou uma reunião com todos os alunos e professores da Missão de Murraça, acusando alguns deles de trabalharem para a PIDE:

“Aqui andam meninos na Escola que não estão aqui para estudar, mas sim para ouvir o que se diz e ver o que se passa, para irem contar lá fora, porque trabalham para a PIDE, só para nos lixarem […] eu quero que ela (a PIDE) vá à merda (sic) […].”

A 3 de Junho de 1967, o Padre Gwenjere recebeu uma carta do Vigário Geral da Diocese da Beira, informando-o da sua transferência para a Paróquia de Macuti na cidade da Beira. Por não concordar com a transferência, decidiu deixar Moçambique rumo à Tanzânia para ingressar na FRELIMO.

É importante notar que, devido às suas actividades consideradas “altamente prejudiciais” pelo regime colonial português, o Padre Gwenjere contém na Torre do Tombo, em Lisboa, o maior dos dossiês que tratam dos nacionalistas considerados mais perigosos nas ex-colónias portuguesas.

Padre Mateus Gwenjere nas montanhas do Seminário do Zóbuè em 1966, com o seu aparelho de radio, estabelecendo contactos com os seus colaboradores da FRELIMO. Fonte: Dr. Josef Pampalk

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