CHEGADA AO CAMPO MILITAR DA FRELIMO EM NACHINGWEA

Capa do Livro “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”

Éramos mais de meia centena de ex-seminaristas com qualificações invejáveis ​​para os negros daquela época em Mocambique. Quase todos nós abandonamos o Seminário Católico de Zóbuè, para ingressar na FRELIMO em Tanzânia,  frequentando entre o 1.º e o 6.º ano do Liceu. Ficou mais tarde provado que não havia vontade por parte da liderança da FRELIMO, de nos utilizar da melhor forma possível num movimento com muitos dos seus militantes semianalfabetos. Somente os ex-seminaristas do nosso grupo, excluindo aqueles que deixaram o Seminário Maior da Namaacha para ingressar na FRELIMO, poderiam substituir, a todos os níveis, os mais falados professores brancos que leccionavam no Instituto Moçambicano.

Chegamos ao Campo Militar da FRELIMO em Nachingwea nos princípios de Janeiro de 1968. Fomos divididos em grupos e imediatamente começamos com treinos militares. Logo pela manhã, a primeira coisa que fazíamos era maratona – corrida a uma distância de 2 a 4 km e depois praticávamos marcha militar. 

Em pé, da esquerda para a direita: Sebastião Mabote, Alberto Chipande, Joaquim Chissano, José Trindade, Eduardo Mondlane, Samora Machel e Francisco Manyanga. Segunda fila, da esquerda para a direita: Olímpio Vaz, Eduardo Coloma, Uria Simango e Albert Sithole. Fonte: Centro de Documentação e Formação Fotográfica – Maputo.

Recebíamos aulas políticas, ministradas por chineses que nos incutiam o espírito de pensar alto e de enfrentar o inimigo sem medo, pois,  para eles, “o imperialismo era tigre de papel”.

Acima de tudo, praticávamos desporto para uma mens sana in corpore sano. Como era de esperar, éramos bons no desporto, sobretudo no futebol. Um dos nossos guarda-redes, o ex-seminarista José Trindade, foi um dos melhores guarda-redes que a FRELIMO teve. Como se vê na fotografia, o Comité Central da FRELIMO apoderou-se dele para evitar derrotas humilhantes nos jogos entre o Comité Central da FRELIMO e os guerrilheiros do movimento.

Ao chegarmos ao Campo de Nachingwea, encontramos um grupo do Destacamento Feminino. Embora este grupo tivesse chegado muito antes de nós, o nosso grupo aprendeu mais rápido. No grupo deste Destacamento Feminino estava a Josina Muthemba (Machel), uma jovem linda e simpática que conversava bem com todos nós.

O nosso comissário político era Francisco Manyanga (o sétimo em pé na fotografia), um indivíduo muito alegre que nos fazia rir com suas anedotas. Este herói nacional, mais conhecido por Caetano Augusto Mendonça, natural de Charre, Mutarara, Província de Tete, comandou o efectivo de guerrilheiros que foi reabrir a Frente de Tete.

Será que valeu a pena para mais de 100 seminaristas do Zóbuè terem renunciado à vida sacerdotal e deixarem Moçambique para se juntarem à FRELIMO na luta pela independência?

O destino muitas vezes reserva surpresas inesperadas: Não foram os seminaristas que deixaram Moçambique rumo à Tanzânia para lutar pela independência nacional que mais saíram beneficiados na vida, mas sim os seminaristas que optaram por permanecer em Moçambique depois de abandonar a vida sacerdotal bem como aqueles que continuaram com a sua vida sacerdotal. A liderança da FRELIMO não só antagonizou ex-seminaristas do Zóbuè que ingressaram no movimento, como também matou mais de uma dezena deles, maltratou tantos outros, enquanto que para os restantes, as suas vidas ficaram congeladas no tempo.

Por ironia da vida, a mesma FRELIMO – que durante a luta armada antagonizou tanto os seus próprios estudantes como os ex-seminaristas do Zóbué que ingressaram no movimento – ao alcançar a independência, precisou dos ex-seminaristas que encontrou em Moçambique, aqueles que optaram por permanecer no país depois de abandonarem o sacerdócio, pois eram dos poucos negros instruídos que este movimento herdou do regime colonial português, num país deixado de rastos com uma flagrante falta de pessoal negro qualificado.

In “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil” (Um livro sobre a História de Moçambique)

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