QUEM MANDAVA NA FRELIMO APÓS A MORTE DO PRESIDENTE EDUARDO MONDLANE?

Quando este autor juntou-se à FRELIMO em 1967, três grupos influenciavam os acontencimentos no movimento: o grupo de “Sulistas”, o grupo de “Nortenhos”, e o grupo de moçambicanos “Não-nativos”.

O Grupo de Sulistas compreendia militantes originários de províncias ao Sul do rio Save, nomeadamente Inhambane, Gaza e Maputo. Tendo assegurado a liderança político-militar,  esse grupo estabeleceu um nó intrincado para proteger e promover os seus interesses. Os homens fortes nesse grupo foram Eduardo Mondlane, Samora Machel, Joaquim  Chissano  e  Armando  Guebuza,  nessa  ordem.  Após a morte do Secretário de Defesa e Segurança Filipe Samuel Magaia, Samora Machel e Joaquim Chissano, que ingressaram na FRELIMO em 1963, após a fundação do movimento, assumiram os cargos de Secretários dos Departamentos de Defesa e Segurança, respectivamente. Armando Guebuza e o enfermeiro Aurélio Manave, que se juntaram à FRELIMO anos mais tarde, isto é, em 1965, tornaram-se Secretários dos Departamentos de Educação e Cultura, e de Saúde, respectivamente.

Importa referir que havia uma política bem elaborada de substituir os “Nortenhos” que ocupavam  cargos de chefia para os “Sulistas”  os  ocuparem. Uria Simango chegou a reclamar no seu documento, “The Gloomy Situation in FRELIMO”, que este grupo de “Sulistas” realizava reuniões e tomava decisões à sua exclusão e à exclusão de outros membros do Comité Central da Região Norte.

“Desde 1966, tem havido uma tendência de um grupo – infelizmente composto por pessoas do Sul que incluíam o falecido presidente da FRELIMO (Dr. Eduardo Mondlane) – de se reunir e tomar decisões sozinhos e impondo tais decisões aos outros por vias de manipulações. O falecido presidente da FRELIMO foi criticado por algumas pessoas conscientes do Sul, de que tais métodos de trabalho poderiam no fim trazer problemas.”

Esse regionalismo Sul prevaleceu após a luta armada de libertação nacional. Conforme demonstra a fotografia no. 38 do último livro deste autor (“O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”), apenas um ministro negro representava o Centro e Norte de Moçambique no primeiro governo da FRELIMO: O Alberto Joaquim Chipande. Importa recordar que foi durante os governos dos presidentes Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Jacinto Nyusi que houve um ligeiro equilíbrio regional na nomeação da equipe governamental.

O Grupo de Nortenhos era um grupo de militantes originários das regiões do Centro e Norte de Moçambique, nomeadamente do rio Save ao rio Rovuma. Este grupo foi representado por Uria Simango e Lázaro Nkavandame. Embora este grupo constituísse a maioria dos militantes do movimento da FRELIMO, a sua liderança não estava coordenada, carecendo  de uma agenda comum. O grupo ganhou força com a chegada do Padre Mateus Pinho Gwenjere, que Uria Simango cooptou para o seu lado para o ajudar a depor o Presidente Mondlane e assumir o poder na FRELIMO.

O grupo de Moçambicanos Não-Nativos incluía moçambicanos de origem portuguesa, moçambicanos de origem asiática bem como moçambicanos de raça mista. Os membros desse grupo exibiam um pensamento radical. Dado o seu intelecto e domínio da língua portuguesa, ocupavam posições-chave no movimento, como a  tarefa de delinear a linha de pensamento político da FRELIMO,  influenciando assim  o  alinhamento do movimento durante  a  Guerra Fria.  Este grupo era liderado por Marcelino dos Santos, que é citado como tendo previsto que o seu grupo assumiria a liderança da FRELIMO:

“Decidimos (moçambicanos não nativos) logo de princípio deixar que Mondlane permanecesse na direcção do movimento, e nós iremos trabalhar no seio do movimento e guiar a frente. Mais tarde, se for necessário, será possível substituir  Mondlane.”

Como que para cumprir as suas palavras proféticas, após o assassinato do Presidente Mondlane, esse grupo direcionou o movimento da FRELIMO para a sua linha ideológica, reforçando, consequentemente, o seu poder político. Embora não gozasse do apoio dos militantes da FRELIMO, o grupo tornou-se o guia do movimento da FRELIMO. Quando o Padre Gwenjere se juntou à FRELIMO em 1967, ele  pressentiu o que estava por vir. Solicitou ao governo da Tanzânia para expulsar membros desse grupo que ele julgava serem infiltrados. O governo da Tanzânia acatou o pedido, expulsando  tais membros  que então se exilaram na Algéria. Refira-se, no entanto, que, após a morte do Presidente Mondlane, esse grupo se restabeleceu e tornou-se o guia político do movimento da FRELIMO, e após a independência, o guia do Partido da Frelimo, até à morte do Presidente Samora Machel em 1986, ou seja, durante um período de 17 anos.  

No auge de seu poder, o grupo fez o uso da sua caneta venenosa e rancorosa para difamar o seu inimigo número um – Padre Mateus Pinho Gwenjere – acusando-o de ser responsável pela morte do Presidente Eduardo Mondlane, embora se saiba que o Padre residia em Tabora, a mais de 1.000 km de Dar-es-Salaam onde foi morto o Presidente Mondlane; acusando-o de ser responsável pela revolta estudantil no Instituto Moçambicano, embora também se saiba que essa revolta começou um ano antes da chegada do Padre a Dar es Salaam, quando o Comitê Central da FRELIMO anunciou novas e radicais reformas estudantis em Outubro de 1966. Esse grupo também acusou o Padre de ser agente da PIDE (Polícia Secreta Portuguesa) e anti-branco, o que, para este autor, soa contraditório: Como é que um anti-branco, que é também um anti-português, se torna, ao mesmo tempo, agente da Polícia Secreta Portuguesa (PIDE), submetendo-se às suas ordens?

Em suma, havia tanto poder em mãos alheias, naquela época,  que, conforme a Senhora Dona Graça Machel correctamente afirmou, Samora Machel foi apenas informado de que os presos políticos de M’telela já não estavam no mundo dos vivos.  Mas isso não o absolve de culpa. Ele esteve profundamente envolvido na perseguição, captura e encarceramento prolongado desses mártires revolucionários.

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In “Mateus Pinho Gwenjere: Um Padre Revolucionário” e “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”  (Livros sobre a História de Moçambique)

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