A PRISÃO DOMICILIÁRIA DO COMANDANTE FRANCISCO MAZUZE

Capa do Livro “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil”

Assim que chegamos em Nachingwea, um dos guerrilheiros da FRELIMO aproximou-se de mim e pediu para que ficasse com ele na sua tenda que era bem grande. Aceitei o convite. Ao lado da tenda onde eu dormia com este meu amigo guerrilheiro, ficava a tenda do Comandante Francisco Mazuze – um indivíduo alto, musculoso e elegante. 

O Comandante  Mazuze não conversava com  outros guerrilheiros e só saia da sua tenda para apanhar raios solares. Procurei saber do meu amigo quem era ele, já que eu o havia cumprimentado e ele não me respondeu. O meu amigo me disse: “Não o cumprimente. Ele é o famoso Comandante Francisco Mazuze. Está preso por lutar demais.” Nos dias que se seguiram, eu me perguntava: “Como é que um indivíduo fica preso por lutar demais?”

Ao ler o livro “Memórias de um Guerrilheiro”, do General José Moiane, cheguei a compreender de que o Comandante Mazuze estava preso por contrariar a política de “guerra prolongada” que se intensificou após a morte do Secretário de Defesa e Segurança Filipe  Samuel Magaia. 

O General José Moiane escreve que numa ocasião, Mazuze atacou a base de uma unidade das tropas portuguesas, depois do qual a ocupou. Quando esta tropa portuguesa tentou recuperar a base, alguns dias depois, a mesma foi repelida pelo Pelotão do Mazuze que ali permaneceu estacionado. Segundo General Moiane, a Direcção do Comando Nacional  não gostou nada da atitude de Mazuze, de  “querer fazer uma guerra de posição com o inimigo” (em vez de atacar a base e fugir). Foi assim convocado para o Campo Militar de Nachingwea.

Importa referir que o Secretário da Defesa, Comandante Samora Moisés Machel, comparecia frequentemente no Campo Militar de Nachingwea. E cada vez que ele aparecia, nós, ex-seminaristas do Zóbuè, não nos sentíamos à vontade. Pois, cada vez que se dirigia a nós, que continuávamos a rezar no Campo, ele recordava-nos que Nachingwea não era um centro de rezas: “Deus não existe, ouviram? Deus não existe”, dizia ele.

De um grupo de mais de meia centena de ex-seminaristas que éramos, 16, considerados mais novos – com 15 anos ou menos e que nao tinham idade para prestar o serviço militar – foram seleccionados para seguirem para o Instituto Moçambicano, em Dar-es-Salaam, para continuarem a estudar.

Inicialmente, quando este pequeno grupo que iria para Dar-es-Salaam estava separado do grande grupo,  eu não estava incluído nele. Acho que foi devido a uma confusão de nomes: o nosso grupo de ex-seminaristas deixou Malawi para a Tanzânia, na companhia de outros jovens que também seguiam  para Nachingwea. Um destes jovens, da província da Zambézia, chamava-se João Trusão: Isso mesmo, ele escrevia o seu apelido com “s” – Trusão. O Comandante Samora Machel chamou este indivíduo pelo seu nome, João Trusão, para integrar o grupo que seguiria para o Instituto Moçambicano.

Quando os dois grupos já estavam constituídos, ele (Machel) deu uma olhada e me viu no grupo  maior que permaneceria em Nachingwea. Vendo-me neste grupo, baixinho e pequenino que eu era,  perguntou- me: “Tu, como te chamas?”. Respondi: “Chamo-me João Baptista Truzão”. Meio irritado, ele logo me trocou com João Trusão: “Tu, vens aqui (referindo-se a João Trusão). E tu vais para lá” (referindo-se a mim), sem perguntar quantos anos eu tinha ou quantos anos tinha o João Trusão.

In “O Seminário Católico de Zóbuè: Entre a Cruz e o Fuzil” (Um livro sobre a História de Moçambique)

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